domingo, 12 de fevereiro de 2012

Fumaças e presenças

Como lembra-se de um sonho. Fica perto, mas sai. Outros níveis, lugares onde tudo é som. Depois da música. Como um quebra cabeças que sempre existiu, com peças ainda por descobrir. Não é nem mais cruzamento, é outra coisa. Talvez um teórico consiga melhor, mas também não é isso. Uns iniciam um caminho, mostram o que fizeram e quem fica continua. Tal o que houve por volta do ano 68, brigas e desentendimentos. Cada um pro seu lado. Viver neste século pensando nos outros, fazer o caminho de volta, mesmo sem poder olhar para trás, mesmo. Algo se esclarece, mas ainda é cedo para saber. Talvez não seja nem saber, seja ver, ou ouvir. O corpo é prova de existência, e por isso, vamos ao Carnaval. Evoé!

Pedro Lago.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Gotas

A taça de vinho no calor do domingo onde o expressionismo mal visitado estimulou este semear de propostas. Tem que ser na prática, sempre. Dissecar o grotesco dentro das particularidades da palavra escrita. Palavra escrita. O molho de pimenta, as mesas cheias, os olhares para fora do foco. Há algo de errado neste século. Inclinação ao perfume colorido das telas azuladas. Pesquisa, pesquisa, o mergulho necessário para os cadeados enferrujados. O absurdo tem uma lógica. Algo aconteceu no instante em que mexia a cabeça contorcendo-me na cadeira. Alguém percebeu. Paranóia total. Respirar, respirar, voltar para o jogo. Constante desejo de explosão, possibilidades de trovoadas, golpes de relâmpagos, mesmo que dure apenas 1 segundo. E nas brincadeiras de roda o peão cai, a pipa voa e a bola cai no buraco até que ninguém mais se lembre dela.

Pedro Lago.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Do poema

Começar pelo poema. Ameopoema. Depois abrir para algum lugar. A contenção objetiva. Como concentrar-se para explodir a cabeça de alguém. Um dia dominaremos isso. O poema como orgasmo potente, faca que arranca, que parte. O poema como agente da paixão. Paixão... essa coisa do corpo que treme, das vísceras em festa, carnaval dos órgãos, bacanal do sangue, dança dos lábios no sabão da boca, parque de diversões dos poros saltitantes, cortejo dos dedos risonhos... Tudo dentro de um tiro só. Não basta apenas o corpo, e para muitos, o poema. Rasgar o céu com unhas de tinta, de lama, de lava. Um porta leva à outra, mesmo que não haja portas, mesmo que não haja cidades, mesmo que não tenham inventado o concreto. O poema como caminho, árduo caminho, silente cruzar de espantos.


Pedro Lago.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Substância

Antes que tudo fosse tudo, antes que nada fosse nada, quando antes não era antes, no início, do início, do início... uma substância que conduz, movimenta os atos, algo de cor básica, terra sem água, algo que a dança movimenta, o gesto, a não-palavra, a desfragmentação do blocos virgens, a fumaça da respiração primeira, algo de sopro, de gozo suspenso no vácuo, como se tudo virasse ponto que explode e depois volta, sem data, sem tempo, sem grito, sem ar, tudo numa coisa só, depois movimento que se expande, algo assim, a pantomima essencial na natureza, o grito sem som, o que está por trás, que traz vertigem, que traz calma, que traz algo que a bailarina não conseguiu explicar, algo que de tempos em tempos um indivíduo consegue tocar, mudar o leme, seja onde for, qualquer linguagem, pois, dentro das sínteses estão os novos rumos, o que deixa lastro, rastro, fenda, a fenda, abrir a fenda, se sustentar na fenda, mostrar onde é a fenda...abriu.

Pedro Lago

domingo, 15 de janeiro de 2012

Luta

Ser passivo, que deixa a tormenta, que não compreende onde deve fincar seu punho cerrado. Esquerda. No sentido mais profundo. O que há? Medo? Pavor? Temor? Os tenebrosos gritos da paranóia total. Saber-se valente, obstinado, como o cavalo que recebe o nome do planeta. Viver para o gozo, para a construção de algo que faça sentido. Para si? Para os outros? Para quem? A cólera atávica dos mortos. Essa honra dispensável aos monges. O que há depois das centenas de tropas com foices e pedras? Essa constante releitura da própria história, do caminho. Como a ponte invisível do arqueólogo héroi. O chicote. Lutar pelo quê? Esse olho pintado dessa espécie de simpatia oriental. A ridícula vontade de possuir. Ganância. O mundo e seus níveis de descaso. Fora da cidade, as pedras são companheiras. Entender os bailarinos que dizem tudo sobre a substância que move tudo, que toca, que entra na carne, nos ossos, no sangue. Poder. Megalomania dos desejos. Não há mais espaços para Alexandres, Césares, reis divinos. A profunda realização. Desarmar-se. Estar ao lado do amor simples. Simples. O mato. A cidade. Adaptar-se ao novo. Fazer o novo. A coisa que move não abandona, é memória, vem da terra, do magma, das entranhas do centro incandescente. Bravo pour le clown!

Pedro Lago.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Olhos azuis

Aquela boca perto daqueles olhos azuis grandiloquentes. A lascívia do toque nas mãos calejadas. A postura do quadril de movimentos impossíveis. A poética da dança onde a palavra não chega. Doce doce doce sabor na gota que desce do lábio e se mistura ao vinho do domingo que adormece. Corpo enrijecido nas minúcias. A lubricidade que carrega nas costas, na pele branca, nos calos dos pés machucados. A postura exuberante, desenhada em leves espasmos do verbo gozar. O viço das formas, dos aromas, de tudo que permeia a composição da oculta libertinagem dos corpos entrelaçados, braços, dedos, línguas, vogais que saem como gotas de esperma dentro e fora da carne vermelha repleta de mel.

Pedro Lago.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O grão perdido

Arranhava o tecido liso e repleto de gotas de sal. Olhos cerrados. Cheiro de incenso. Álcool. Boca seca. Todas as nove sinfonias em sequência. Apreço pela oitava. Torce o pensar que acompanha inutilmente. Os lábios de cima, de baixo, o desenho das sombras das costas enrijecidas e leves espasmos dentro das vogais no travesseiro amassado. Mais nada. Tudo dentro do movimento. O dia começando com o freio dos ônibus na janela fechada. Corpo Corpo Corpo Vibração nas Alturas. Fios brancos compondo as mechas coladas pela água seca. Sal de novo. Água quente, morna na mesa de madeira antiga. Esse roçar de peles na escuridão dos órgãos. Esse toque de vermelhos em círculos e o estalo dos gritos. Gritos. O ano começando no domingo. Nada mais. Seguir.

Pedro Lago.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Aqui os mortos deixam seus ossos

Versos repetidos desde quando ainda era um mancebo que lia Timothy Leary e Castañeda e queria mudar as pessoas, fazê-las olhar a lua pelo menos uma vez. Depois aquela enveredada proustiana até Sodoma e Gomorra, ali ainda não me esparramei. Foi-se. Mais um. Hecatombes naturais do processo humano. Fim do mundo? Entropia do apocalipse? Blah! Não. Definitivamente não. Sei que haverá mais, mas, há um verão para celebrar. E daí? Não sento no canto direito da mesa do café com uma garrafa de absinto parecendo o Gengis Khan, mas sua vida me interessa. Assim como a do menino bonito da cidade, da província de Paris, como o poeta Lucien do Honório de Balzac. Sentindo-se prometeico, paranóia do fígado, sentindo a faísca, mais nada. Os homens morreram, sobrou este. Agora é bater o tambor em intervalos longos, dó sol dó no sopro, o limite das gerações, mão em cima e mão em baixo e os braços dados que não se partem, os músculos resistem, o vôo é inevitável. Tudo vai ficando pequeno perto da atmosfera, os satélites são feitos de lata e não há som. No espaço, Proust é apenas uma lembrança, a Nona é o som do fim e do início de tudo. Evoé!

Pedro Lago.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Lullaby e as fronteiras da floresta negra

Um pouco além da completa escuridão que surge entre os pinheiros, quando apenas o ruído de folhas secas são reconhecidos, pode-se enxergar o reflexo dos olhos de algum ser que mantém todos fora do alcance. Por que? Só indo. Talvez encontremos um pequeno lago ou gruta e pingos ininterruptos. Talvez uma respiração profunda, como quem hiberna há séculos. E o barulho? E a tocha que apaga? E quando a noite torna tudo mais escuro? Tudo aqui é tão frio, úmido, tão... Os deuses das matas querem que os corpos se entrelacem, querem a repetição do caos primeiro, querem o fogo surgindo onde não há nada além de pedras desejando sombras. Em algum lugar depois da completa escuridão há um facão. Lâmina que anseia galho. Boa viagem.

Pedro Lago.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sobre embriaguez e outros prazeres

Gosto do título Ardor Irresistível. Filme bom. Irresistível também é a ira que surge ao questionar sofismas nas madrugadas da Lapa. Gosto das calçadas de Botafogo e do preço da cerveja na Voluntários. As mulheres comprometidas, as meninas em formação, o futuro turvo das lâmpadas velhas nas praças do centro do Rio, das vidas passivas de sorrisos simples. Gosto de tudo isso como gosto do desejo da faísca surgindo nas manhãs de um dia quente. Hoje não, hoje não. Nada além de palavras e a saliva que escorre nos lábios. Meninas não veem a maldade dos homens velhos. As cenas de sexo explícito em processo. Selvageria. Travessia. Nonada. Todas essas bobagens que permeiam as conversas bobas da juventude. Isso se perde quando o cabelo começa a cair. Gosto das orelhas e dos elixires do gozo. Gosto do corpo nu e da língua que percorre lentamente a inflamação efêmera.

Pedro Lago.